27 de agosto de 2013 | 11h31
Havia elementos para suspeitar que a retomada da oferta
diária de dólares no mercado futuro ou em operações de moeda à vista com
recompra garantida não seria suficiente para evitar novas desvalorizações do
real, como já se viu nesta segunda-feira, segundo dia do programa de oferta
diária de dólares, instituído pelo Banco Central. Não é só o ambiente
financeiro global, propício, no momento, a movimentos bruscos e manobras
especulativas, que permite alimentar a desconfiança. Uma série de fatores, no
quadro doméstico, também opera na mesma direção.
Ainda que os sinais continuem oscilantes, o cenário global
parece já ter definido uma tendência mais nítida de recuperação das economias
desenvolvidas. Há indicações também de que essa retomada será acompanhada de alguma
reversão do peso dos emergentes na economia global. Estes, que haviam avançado,
na última década, de 38% para 50% do PIB mundial, dão mostras de que entraram
numa etapa de ajuste.
É bom saber que, se o protagonismo dos emergentes é uma
novidade, o ritmo em que está se dando a retomada entre os desenvolvidos
obedece a um padrão histórico. Nas últimas três dezenas de crises de bolhas
financeiras desde 1930, o setor privado, nas economias maduras, promoveu sua
desalavancagem e retomou os investimentos, colocando os negócios novamente em
terreno de crescimento, num intervalo de seis a oito anos. Já estava na hora,
portanto, de voltar à antiga normalidade.
A confirmação desse panorama reforçará as alterações já em
curso nos fluxos financeiros globais. Com a liquidez gigante, promovida pelos
bancos centrais dos países desenvolvidos com o objetivo de mitigar a crise,
investidores buscaram rentabilidade nos mercados emergentes enquanto as
economias desenvolvidas digeriam as bolhas de ativos nas quais mergulharam em
meados da década passada. Começam agora a fazer o caminho de volta.
Esse retorno se dá com o respaldo das evidências de que
existe uma relação inversa entre o volume de liquidez provido pelos bancos
centrais e a retomada do crescimento. O mecanismo que promoverá a equalização
desses movimentos é a taxa de juros. Nos Estados Unidos, onde uma economia
naturalmente inovadora e plena de recursos, não por coincidência sem sofrer as
amarras do câmbio fixo da zona do euro, corre na frente, os juros já saíram da
letargia.
Uma ideia do caminho que os juros, nos EUA, ainda podem
percorrer, arrastando com ele as nuvens de gafanhoto financeiras globais, pode
ser dada pela trajetória dos títulos de dez anos do Tesouro americano. De maio
para cá, os juros das T-Note de 10 anos avançaram até as portas de 3% e, nos
últimos dias, oscilam em torno dessa fronteira. Daí para 4%, seu nível
histórico, há ainda uma estrada a percorrer – e um estrago a produzir nos
emergentes.
A moeda brasileira está entre as mais afetadas por este
movimento. São os dois os motivos principais. O primeiro, cantado quase como um
mantra, é a atual deterioração das contas externas, com o déficit em transações
correntes se aproximando de desconfortáveis 4% do
PIB.
O outro, muito menos mencionado, se bem que mais permanente,
é a amplitude relativa do mercado cambial brasileiro. Embora o real seja apenas
a vigésima quinta moeda mais negociada, respondendo por somente 1% das
transações cambiais globais – estas, por sinal, somam U$$ 4 trilhões por dia!
–, ocupa posição de destaque nos segmentos de negociação de futuros em bolsa.
Liquidez relativa mais alta parece explicar melhor do que a
fragilidade momentânea nas contas externas a histórica alta volatilidade da
moeda brasileira em momentos de tensão econômica global. Nesses episódios, há
mais de duas décadas, a moeda brasileira aparece sempre nos primeiros lugares
entre as que mais se valorizam ou desvalorizam.
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