A parcela do
eleitorado que não vota apenas por obrigação, nem perdeu de todo o interesse
pela política, está em dívida com o PT. O partido acaba de reavivar a sua
memória, chamando a atenção para o que há de mais autêntico no seu modo de ser
e tratar os desafetos - o rancor.
Esse traço de nascença andava um tanto obscurecido desde
que o então presidente Lula lançou mão de seu imenso talento de manipulador
para não deixar que as suas diatribes contra a oposição e a "mídia
golpista" abalassem a imagem marqueteira do "Lulinha, paz e
amor", de 2002. É bem verdade que em momento algum a popularidade de Lula
transbordou de sua figura para o partido do qual foi criador e ainda hoje é
guia e mestre.
Mas, ao longo de seus dois mandatos, a aversão ao PT nas
faixas da sociedade brasileira mais bem informadas e menos dependentes dos
cofres federais se nutriu sobretudo da naturalidade com que a sigla se entregou
às delícias "disso tudo que está aí" - do que o mensalão foi o
apogeu. Quando veio à tona, o mergulho da legenda na corrupção como instrumento
por excelência de perpetuação no poder se revelou profundo.
A tal ponto que afastou das vistas de inumeráveis
brasileiros a peçonha alojada no âmago de sua natureza, embora adormecida
enquanto o partido empreendia o percurso rumo ao que os costumes políticos
nacionais têm de pior. Agora, como que aplicando a si mesmo a transparência de
que faz praça de ser paladino, o PT voltou a escancarar o que tem de mais
entranhado e por isso imune até as críticas de seus membros mais civilizados.
Na terça-feira, apareceu na página da agremiação no
Facebook um texto de 600 biliosas palavras, sob o título pseudoliterário A
balada de Eduardo Campos, referindo-se ao governador de Pernambuco. Por não ter
assinatura, a peça pode legitimamente ser lida como manifestação oficial do
partido - excluída, por absurda, a hilária hipótese de ter sido plantada ali
por um quinta-coluna ou um hacker a serviço das forças antagônicas ao projeto
reeleitoral da presidente Dilma Rousseff.
O arreganho acusa o pré-candidato do PSB ao Planalto de
ter entrado em desespero quando ficou claro que não havia a menor chance de o
PT adotar o seu nome. À parte qualquer outra coisa, trata-se de um disparate. A
chance nunca existiu e Campos decerto sabia disso. Se Lula concluísse que Dilma
correria o risco de não se reeleger, ele mesmo - e não o então aliado - a
substituiria. Mas a falsa premissa serviu para estigmatizar o neto do velho
líder esquerdista Miguel Arraes, citado no insultório.
Campos, "estimulado pelos cães de guarda da
mídia", decidiu que era hora de se apresentar como candidato. Com isso -
para reduzir a duas palavras neutras um chorrilho de agressões -, o governador
"rifou não apenas a sua credibilidade política, mas se mostrou, antes de
tudo, um tolo". Poderia ser o fecho inglório de mais uma prova da
propensão petista à baixeza contra os que tem por desafetos. Mas não.
A propósito, ao adotar o xingatório mais crasso como arma
política ou ideológica, o PT é apenas fiel a uma tradição inaugurada, na esquerda
radical, por ninguém menos que Karl Marx. Na América Latina contemporânea quem
mais bem a encarnou foi Hugo Chávez. De todo modo, o leitor que suportar a
náusea, indo adiante no lamaçal, não tardará a perceber o que lhe deu origem.
É o medo de que uma chapa Eduardo Campos-Marina Silva,
como apontam as pesquisas, leve a disputa pelo Planalto ao segundo turno,
criando uma configuração ameaçadora para Dilma. A ex-ministra é chamada de
"ovo da serpente", adesista e "pedra no sapato (
) da triste
mídia reacionária". Isso porque a "vaidosa" estaria certa de que
será cabeça de chapa. Outro disparate: Marina teria de ser tão obtusa como o
autor do mal traçado post para achar ou que poderia persuadir o governador a
ceder-lhe a vaga a que aspira ou que poderia, contra ele, levar o PSB a
entregar-lhe a titularidade da candidatura.
Mas isso é detalhe. O que não é, além do strip-tease da
alma petista, é o erro primário de tratar Campos como inimigo. Se houver um
segundo turno com Aécio Neves, com que roupa o PT poderá pedir ao ofendido que
se abstenha de apoiar o tucano?
Nenhum comentário:
Postar um comentário