Entramos em ano eleitoral. Campanhas milionárias,
promessas surrealistas e imagens produzidas fazem parte do marketing dos
políticos. Assiste-se, frequentemente, a um show de efeitos especiais capazes
de seduzir o grande público, mas, no fundo, vazio de conteúdo e carente de
seriedade. O marketing, ferramenta importante para a transmissão da verdade,
pode ser transformado em instrumento de mistificação. Os programas eleitorais,
mais uma vez, venderão uma bela embalagem, mas, de fato, tentarão fugir da discussão
das ideias. Nós, jornalistas, somos (ou deveríamos ser) o reverso a essa
tendência.
Jornalismo é contraponto. Cabe-nos a missão de rasgar a
embalagem e desnudar os candidatos. Só nós, estou certo, podemos minorar os
efeitos perniciosos de um espetáculo audiovisual que, certamente, não contribui
para o fortalecimento de uma democracia verdadeira e amadurecida.
Por isso uma cobertura eleitoral de qualidade é, antes de
mais nada, uma questão de foco. É preciso declarar guerra ao jornalismo
declaratório e assumir, efetivamente, a agenda do cidadão. Não basta um painel
dos candidatos, é preciso cobrir a fundo as políticas públicas que mexem com a
vida das pessoas. É importante fixar a atenção não nos marqueteiros e em suas
estratégias de imagem, mas na consistência dos programas de governo.
O nosso papel é ouvir as pessoas, conhecer suas queixas,
identificar suas carências e cobrar soluções dos candidatos. Não se pode
permitir que as assessorias de comunicação dos políticos definam o que deve ou
não ser coberto. O centro do debate tem de ser o cidadão, as políticas
públicas, não mais o político, tampouco a própria imprensa. Na prática, não
obstante a teoria da agenda-setting (Maxwell McCombs e Donald Shaw,
formuladores da hipótese, afirmam que o debate público é determinado pelas
pautas dos jornalistas) atribuir à imprensa uma influência decisiva na
determinação da agenda do público, tal poder, de fato, passou a ser exercido
pelos políticos. O jornalismo de aspas, pobre e simplificador, repercute o
Brasil oficial, mas oculta a verdadeira dimensão do País real. Precisamos fugir
do espetáculo e fazer a opção pela informação. Só assim, com equilíbrio e
didatismo, conseguiremos separar a notícia do lixo declaratório.
Outros desvios éticos podem comprometer a qualidade da
cobertura eleitoral. Sobressai, entre eles, o perigoso jornalismo de dossiê. Os
riscos de instrumentalização da imprensa são evidentes. Os protagonistas do
teatro político não medirão esforços para fazer a mídia, à sua revelia,
destilar veneno nos seus adversários. Por isso é preciso revalorizar, e muito,
as clássicas perguntas que devem ser feitas a qualquer repórter que cumpre uma
pauta investigativa: checou? Tem provas? A quem interessa essa informação?
Trata-se de eficiente terapia no combate ao vírus da leviandade.
O esforço de isenção, no entanto, não se confunde com a
omissão. O leitor espera uma imprensa combativa, disposta a exercer seu
intransferível dever de denúncia. A sociedade quer um quadro claro, talvez um
bom infográfico, que lhe permita formar um perfil dos candidatos: seus
antecedentes, sua evolução patrimonial, seu desempenho em cargos atuais e
anteriores, etc. Impõe-se também um bom levantamento das promessas de campanha.
É preciso mostrar os eventuais descompassos entre o discurso e a realidade.
Trata-se, no fundo, de levar adiante um bom jornalismo de serviço.
Os políticos, pródigos em soluções de palanque, não
costumam perder o sono com o rotineiro descumprimento da palavra empenhada.
Afinal, para muitos deles, infelizmente, a política é a arte do engodo. Além
disso, contam com a amnésia coletiva. O jornalismo de qualidade deve assumir o
papel de memória da cidadania. Precisamos falar do futuro, dos projetos e dos
planos de governo. Mas precisamos também falar do passado, das incoerências e
das ambiguidades.
Armação da imprensa. Distorção da mídia. Patrulhamento de
jornalista. Quantas vezes, caro leitor, você registrou essas reações nas
páginas dos jornais? Inúmeras, estou certo. Recentemente, um condenado do
mensalão se referiu à imprensa que desencadeia a pressão popular contra homens
públicos aéticos e governantes corruptos comparando-a, com cinismo, à
"ditadura militar". Tais declarações, característica de políticos
apanhados com a boca na botija, não devem preocupar. Afinal, todos,
independentemente do seu colorido ideológico, procuram o bode expiatório para
justificar seus crimes, deslizes e malfeitos. A culpa é da imprensa! O grito é
uma manifestação de desprezo pela verdade.
Personalidades públicas, inúmeras, têm procurado usar a
mídia. Afirmam e depois, cinicamente, desmentem o que afirmaram. Nós não
podemos ficar reféns desse jogo. Os meios de comunicação existem para
incomodar. Um jornalismo cor-de-rosa é socialmente irrelevante. A imprensa, sem
precipitação e injustos prejulgamentos, tem o dever de desempenhar importante
papel na recuperação da ética na vida pública. Nosso compromisso não é com as
celebridades, mas com a verdade, com a informação bem apurada, com os leitores.
E nada mais.
O Brasil está passando por uma profunda mudança cultural.
A corrupção, infelizmente, sempre existirá. Mas uma coisa é a miséria do homem
e outra, totalmente diferente, é a indústria da corrupção que está aí. Esta,
sem dúvida, deve e pode ser combatida com os instrumentos de uma sociedade
civilizada. Transparência nos negócios públicos, ética e competência são as
principais demandas da sociedade. Memória e voto consciente compõem a melhor
receita para satisfazê-las.
*Carlos Alberto Di Franco é doutor em comunicação pela
Universidade de Navarra e diretor do departamento de comunicação do Instituto
Internacional de Ciências Sociais. E-mail: difranco@iics.org.br.
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