Anote-se na agenda das mutações
tupiniquins: a bomba da primavera de 2013 pode ser o traque do verão de 2014. A
hipótese é bastante sustentável na esfera da política. Quem diria que a
sonhática Maria Osmarina Silva de Lima, ex-seringueira e ex-senadora do Acre,
se uniria em aliança política com o pragmático e garboso governador de
Pernambuco, Eduardo Henrique Accioly Campos, comandante do PSB, para juntos
lutarem pela cadeira presidencial?
O sonho de Marina Silva é depurar
as práticas da velha política, banhando-as nas águas da ética, ou, em seus
termos, "assumir responsabilidades com a sustentabilidade política,
social, ambiental e cultural". O pragmatismo de Campos tem como ideia
"aposentar um bocado de raposas que estão enchendo a paciência do povo
brasileiro para o Brasil seguir em frente". A propósito, o governador,
tempos atrás, já confessara a este escriba a meta de reunir no mesmo espaço
"o grupo pós-64" (citando Aécio Neves, Gilberto Kassab, Ciro e Cid
Gomes, entre outros), assumir o comando da Nação e dar adeus aos guerreiros da
velha-guarda.
A fome moral da líder da Rede
Sustentabilidade e a vontade do neto de Miguel Arraes de presidir a mesa dos
comensais do poder produziram o artefato de maior repercussão neste ciclo
pré-eleitoral. Como é costume no balcão de nossos produtos políticos, as
dobraduras da engrenagem deixam de ser examinadas de forma a mostrar se estão
ajustadas ou até se faltam parafusos para dar lugar ao "feito
extraordinário" que, à primeira leitura, induz à convicção de que tal
parceria abre um rombo nos costados da candidatura governista. Nem se atenta
para o fato de que o elo entre Marina e Campos, à luz da racionalidade, não é
tão resistente como aparenta. Basta lembrar a posição da bancada do PSB na
votação do Código Florestal, alinhada em peso aos ruralistas. Nem o látex da
seringueira que Marina extraía em sua adolescência é capaz de emprestar firmeza
a essa liga. Que só se justifica em função das composições frankensteinianas
que a política nestes trópicos é capaz de produzir.
Façamos uma leitura dos fatores -
alguns de fundo sociocultural - que embasam as práticas eleitorais, a começar
pela cultura de votação. O candidato prevalece sobre os partidos. Há casos em
que as organizações predominam e avançam sobre os perfis pessoais. Isso ocorre
nos espaços onde a polarização entre elas é muito aguda - PT e PSDB, por
exemplo, em algumas regiões formam batalhões em seus campos de guerra. Ou com
as siglas de caráter religioso (principalmente as patrocinadas por credos e
igrejas) e as que ocupam as extremidades do arco ideológico, cujo discurso
radical é seletivo, afastando as massas eleitorais (PCO, PSTU, etc.). Sob a
ordem de um sistema cognitivo que tende a privilegiar perfis pessoais,
transferir votos constitui operação dificilmente viável. Assim, a hipótese de
Marina transferir seu patrimônio eleitoral para Campos é frágil. Nem se fossem
irmãos siameses a transferência seria realizada. O individualismo é o vértice
da política brasileira. Ideários formam apenas pequenas ilhas no arquipélago.
Mas as figuras diferentes de
Marina e Campos não contêm uma raiz ideológica comum? É possível. A convivência
por bom tempo no mesmo canto do espectro ideológico condiciona amigos de ontem
e parceiros de hoje a usarem a mesma linguagem e, por conseguinte, a comporem
discurso sintonizado. O parentesco doutrinário favorece a formação de um
ideário comum e, nessa condição, os noivos se motivam a formar uma união
estável com direito a lua de mel de algumas semanas. Ainda assim, a
transferência de voto não se dá em grandes quantidades: pode-se calcular margem
de 10% a 15%.
Ademais, por maior esforço que
façam os nubentes, a união estará sujeita a trovoadas. E já se ouvem trovões.
Marina pediu que Ronaldo Caiado, líder do DEM, conhecido guerreiro ruralista,
buscasse a porta de saída do PSB. O deputado aceitou. Alfredo Sirkis, fundador
da Rede e um dos principais aliados de Marina, defende
"realinhamento" de forças com políticos de outros conjuntos. Marina é
contra. Imagine-se, agora, um cabo de guerra puxado pela sonhática e pelo
pragmático.
Se a passagem de votos de Marina
para Campos não encher o bornal dele, quem acabará levando a melhor com a
"jogada de mestre"? A própria Marina, em caso de inversão da chapa,
ela encabeçando-a. Ou Dilma. A proximidade entre eles foi firmada no ciclo
petista. O governador e a ex-senadora saíram dos espaços que o PT abriu, à
esquerda. A Rede e o PSB tentam desfraldar, mesmo de maneira acanhada, a
bandeira do socialismo. Logo, o parentesco com a presidente é patente.
Outras pedras do tabuleiro
deverão ser jogadas quando os discursos começarem a jorrar das trombetas
eleitorais. Os eixos centrais já foram apresentados. Campos tem intensificado a
pregação com os verbetes "melhorar, fazer mais e melhor, qualificar serviços
públicos". Não é oposicionista como Aécio, que defende um programa radical
de "mudanças". As pesquisas mostram a contrariedade da população com
os serviços públicos (o que combina com o discurso de Campos), mas não está
insatisfeita com seu modo de vida. O bolso do consumidor continua bancando o
suprimento cotidiano.
O estado social conduz a hipótese
de que o conceito "melhorar" é mais palatável que o verbo
"mudar", aquele expressando aperfeiçoamento, melhoria dos serviços
públicos, este despertando o receio de uma virada de mesa. A resposta das
urnas, como se sabe, será dada pela economia. A manutenção de índices elevados
de satisfação, o controle da inflação e a garantia de empregos seriam os
requisitos para a candidata à reeleição capturar parcela dos votos de Marina.
Sob essas espessas nuvens, a tão
comentada bomba da primavera ameaça perder combustão e virar um traque no
verão.
* Jornalista, professor titular
da USP, é consultor político e de comunicação Twitter: @gaudtorquato
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