O Estado de S.Paulo
As manifestações populares que
tomaram as ruas nas últimas semanas, entre os resultados concretos que já
produziram - como a redução das tarifas dos transportes - e outros que
certamente ainda provocarão, colocam a nu a monumental realização de Lula e do
PT em pouco mais de dez anos no poder: a debilitação, quase a anulação, do
debate político em seu maior foro institucional, o Parlamento.
Na falta de quem exprimisse seus
anseios e necessidades mais prementes - captá-los e processá-los é função dos
políticos, numa democracia representativa -, o cidadão saiu às ruas para dizer
ele próprio o que pensa e o que quer do governo. É simples assim. Menos mal, é
claro, que vivemos num país em que o cidadão tem a liberdade de sair às ruas
para se manifestar. Mas é muito ruim que seja forçado a esse exercício
democrático porque se cansou de ver obstruídos os canais institucionais que,
por definição, existem para representá-lo.
Esse gravíssimo sintoma do mau
funcionamento do sistema democrático só pode ser debitado na conta de quem tem
a responsabilidade de manejá-lo: o governo.
E o simples fato de o governo ter
sido constrangido a vir a público para admitir que o coro das ruas tem razão e
para anunciar providências emergenciais para atendê-lo leva à inescapável
conclusão: se o governo tivesse tido a competência de fazer antes, no tempo
certo, o que está tentando fazer agora, sob a pressão do clamor popular, os
brasileiros estariam hoje celebrando em paz o país de sonho que o PT prometeu e
não entregou.
O fato é que o lulopetismo, do
alto de sua soberba, messiânico e populista, a partir de 2003 tomou enorme
gosto pelo poder e passou a cultivar a obsessão de nele se perpetuar. Uma
ambição até legítima, se sustentada de forma genuinamente democrática.
Mas está longe de ser democrático
quem sustenta seu poder - para ficarmos apenas no caso do Congresso Nacional -
por meio da subjugação das instituições, exatamente aquelas que têm a missão
constitucional de representar os cidadãos (a Câmara dos Deputados) e as
unidades federadas (o Senado Federal), além de fiscalizar os atos do Executivo.
Pois foi exatamente essa a tarefa a que, inicialmente sob o desastrado comando
do mensaleiro José Dirceu, o PT se dedicou com afinco: transformar o Congresso
Nacional num mero balcão de negócios, silenciando a discussão das grandes
questões políticas do País com a generosa distribuição de toda sorte de
vantagens pessoais, inclusive de nacos de poder. Afinal, para que debate, se os
iluminados donos do poder sempre souberam perfeita e exatamente o que o povo
quer?
É claro que, a partir do instante
em que senadores e deputados se mostram incapazes e desinteressados de atuar em
sintonia com o sentimento popular, se abre espaço para o clamor das ruas.
Trata-se de reação saudável do ponto de vista da democracia, mas obviamente
excepcional. A necessária participação popular nos sistemas democráticos tem à
sua disposição mecanismos e foros adequados, de organizações não governamentais
e entidades associativas aos partidos políticos. Mas é nos Parlamentos que
devem desaguar as aspirações populares.
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