27/05/2013 - 03h30
Miséria ainda persiste na educação e no emprego, diz índice
oficial
JOÃO CARLOS MAGALHÃES
BRENO COSTA
DE BRASÍLIA
BRENO COSTA
DE BRASÍLIA
O governo Dilma Rousseff melhorou a
renda dos pobres, mas não solucionou seus níveis miseráveis de acesso a emprego
e educação.
É o que revela um indicador que o
próprio governo federal usa para analisar a pobreza no país, cuja base de dados
de dezembro de 2012 a Folha obteve por meio da Lei de Acesso à Informação.
Desenvolvimento de crianças e adolescentes tem melhor
nota no indicador
Análise: Pobreza e renda são só parte da agenda que merece atenção
Análise: Pobreza e renda são só parte da agenda que merece atenção
Chamado de Índice de Desenvolvimento da Família (IDF),
ele é aplicado ao Cadastro Único (banco de dados federal sobre famílias de
baixa renda) e possibilita uma mensuração detalhada da situação do pobres.
Em vez de definir a pobreza só pela
renda, como faz a propaganda oficial, o IDF a divide em seis dimensões:
vulnerabilidade da família, disponibilidade de recursos (renda),
desenvolvimento infantil, condições habitacionais, acesso ao trabalho e acesso
ao conhecimento.
Cada uma delas ganha uma nota, que
varia de 0 a 1, onde 1 significa que a família tem todos os direitos
fundamentais ligado a cada dimensão garantidos, e 0 significa que tem todos
eles violados.
Juntas, essas seis notas criam uma
média geral --que, no caso dos pobres brasileiros, está em 0,61.
O índice de renda, por exemplo, está
acima da média: 0,63. Essa performance tem relação com as mudanças feitas no
Bolsa Família, que elevaram o orçamento do programa em cerca de 67%, chegando a
R$ 24 bilhões.
A última ampliação, feita em 2013 e
portanto não captada pelos dados obtidos pela reportagem, concedeu um
complemento para quem tivesse rendimento mensal per capita inferior a R$ 70
--considerado pelo governo teto para caracterizar a miséria.
CAMPANHA
Essa erradicação monetária da pobreza
extrema cadastrada motivou uma campanha publicitária que anunciou que "o
fim da miséria é só um começo".
Eco da promessa feita por Dilma em 2010
de acabar com a extrema pobreza, o mote estará em sua campanha pela reeleição
no ano que vem.
O que contradiz o slogan é o desempenho
das dimensões "acesso ao conhecimento" e "acesso ao
trabalho". O índice da primeira, que capta a situação de adultos e de
parte dos jovens, está em 0,38. O da segunda, em 0,29.
É difícil fazer uma análise comparativa
dessas notas, uma vez que não existem cálculos recentes do IDF para toda a
população.
No entanto, uma maneira de traduzir as
notas é pensar que o IDF foi concebido no segundo governo Fernando Henrique
Cardoso para medir o grau de acesso a direitos fundamentais por meio de
perguntas objetivas --a cada "sim" a nota aumenta, e a cada
"não", diminui.
Aplicando essa ideia à nota geral, é
como dizer que os pobres brasileiros têm acesso a 61% de todos os seus direitos
fundamentais e são privados de 39% deles.
Em relação às notas mais baixas, é como
dizer que eles acessam 29% dos direitos ligados ao trabalho e 38% dos relativos
ao conhecimento. Alguns componentes detalham essas dimensões. Por exemplo, a
proporção de famílias pobres com ao menos um adulto analfabeto, que supera os
80%.
Como o país experimenta algo próximo do
pleno emprego, uma possível explicação é que a falta de formação nessa fatia da
população é o maior limitador para que ela encontre trabalho.
A baixa nota das duas dimensões indica
também que o número de pessoas que precisa do Bolsa Família não deve diminuir
tão cedo, porque o emprego e a educação são tidas como as principais
"portas de saída" do programa.
OUTRO LADO
O Ministério do Desenvolvimento Social
afirmou que o país experimenta "inegáveis" avanços na educação e no
trabalho, que não necessariamente são captados pelo Índice de Desenvolvimento
da Família (IDF).
"O Cadastro Único tem
particularidades, entre elas o fato de as pessoas buscarem o cadastramento
exatamente quando enfrentam períodos de dificuldades socioeconômicas e choques
negativos, como perda de emprego", afirmou a pasta.
"Dessa maneira, os inegáveis
avanços que o país teve nas áreas de educação e trabalho são muito mais bem
capturados por meio de fontes de dados voltadas especificamente a esses temas,
como, por exemplo, o Censo da Educação Básica."
Em relação à dimensão "acesso ao
conhecimento", a pasta informou que ela está "focada na escolaridade
dos adultos e não das crianças e adolescentes, público-alvo do acompanhamento
das condicionalidades do Bolsa Família". A dimensão que mede o grau de
desenvolvimento infantil obteve a melhor nota no IDF, alcançando 0,85. (JCM e
BC)
Comentário: A matéria ilustra o que é óbvio: Não se combate a miséria sem serem oferecidas as devidas condições de conhecimento (escola, educação e trabalho ou emprego). Essa é a condição para que os indivíduos consigam colocação no mercado de trabalho e, através do próprio trabalho vão galgando uma busca por renda e mais renda para assim saírem da miséria e da pobreza. Não adianta dar 70,00 reais a um indivíduo e dizer para ele, para a sociedade, para o mundo, que este indivíduo não é mais miserável, fazendo com que este indivíduo se torne refém da própria miséria que nada mais é do que os próprios míseros 70,00 reais que permanecerão estagnados nesse patamar a menos que o próprio governo representando sua sociedade resolva que é preciso bem mais dinheiro gratuitamente para se tirar um indivíduo da miséria e posterior pobreza. Se o governo fizer essa opção, estará dando continuidade ao erro, se optar em aperfeiçoar o sistema adotado, dependendo da escolha das variáveis, talvez irá direcionar o programa de erradicação da miséria na direção correta.
Eduardo Cseny
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