O grotesco assassinato político de Jang Song-thaek, tio e
mentor político de Kim Jong-un, líder máximo da Coreia do Norte, não deixa de
ser, digamos, "normal", dada a característica stalinista de seu
regime político. Nada diferente do que a esquerda totalitária fez na extinta
União Soviética, nos hoje amplamente conhecidos Processos de Moscou, que
eliminaram a velha-guarda bolchevique.
Em outro célebre episódio, Trotski primeiro foi apagado
de uma foto com Lenin numa comemoração revolucionária para depois ser
"apagado" com uma machadada na cabeça, no México. Quem perpetrou o
assassinato foi um agente de Stalin, Ramón Mercader, que acabou placidamente
seus dias em Cuba, com todos os privilégios da Nomenklatura castrista. Nada
distinto do que Mao fez na China. Os camaradas, amigos de ontem, viravam
inimigos, tachados de contrarrevolucionários a serviço do capitalismo.
No Brasil ainda há quem admire Marighella e a guerrilha
do Araguaia, que compartilhavam as mesmas concepções marxistas. Em todos esses
casos, uma patológica perversão das ideias.
O assassinato político tornou-se uma forma
"corriqueira" de a esquerda resolver seus conflitos intestinos.
Processos jurídicos de fachada, tortura, acusações infundadas e mortes eram
características próprias da esquerda no poder. Não há sequer uma experiência
histórica de compatibilização entre socialismo/comunismo e democracia. Lá onde
o socialismo vingou, a democracia jamais germinou. Cuba e Coreia do Norte são
rebentos desse período.
Se tomarmos a Coreia do Norte e a Coreia do Sul, teremos
uma oportunidade rara de comparação entre socialismo e capitalismo. O
capitalismo sul-coreano produziu uma sociedade próspera, com alto grau de
desenvolvimento industrial, científico e tecnológico. Empresas e universidades
lá se retroalimentam. Sua educação tornou-se referência mundial. A democracia é
o seu regime político. Já a Coreia do Norte é um regime tirânico, liberticida,
que reduz sua população a uma vida miserável. A fome grassa e os servos desse
país sucumbem à falta de alimentos. Nada funciona, a não ser o Exército, dotado
de armamento nuclear, usado como ameaça constante à Coreia do Sul. Seus
processos políticos são uma caricatura, tendo sido nesse país instaurada uma
monarquia comunista, com direito de hereditariedade!
O século 20 apresentou outra experiência altamente
significativa. Só os tolos hesitam em extrair dela seu ensinamento. Havia duas
Alemanhas, a Ocidental, capitalista, e a Oriental, socialista. A primeira
caracterizava-se pela pujança,
pelo respeito às liberdades, por uma vida sindical forte,
um crescimento econômico notável e condições sociais invejáveis. Sua indústria
tornou-se um exemplo mundial. Veio a ser uma das maiores economias do planeta.
A segunda tinha como característica central a dominação violenta de sua
população, com uso do partido e de sua polícia política. Suas condições sociais
eram precárias e a liberdade, sistematicamente pisoteada. Tais eram seus
problemas que o socialismo sucumbiu às suas próprias contradições. Nem os
prussianos resistiram ao socialismo. A queda do Muro de Berlim foi um símbolo
da derrocada socialista/comunista. A ideia socialista esborrachou-se no chão.
A esquerda tupiniquim, porém, teima em nada aprender.
Parafraseando Talleyrand, discorrendo sobre a aristocracia emigrada, que se
obstinava em não reconhecer os eventos revolucionários, "eles nada
aprenderam e nada esqueceram". Para essa esquerda, o socialismo continua
plenamente vigente, sendo superior ao capitalismo, compreendido como fonte de
todos os males. Trata-se de uma visão religiosa: o capitalismo é o pecado, o
mal sobre a Terra, a origem do egoísmo e do lucro, enquanto o socialismo seria
a redenção da humanidade, a solidariedade enfim conquistada entre os homens.
O embuste consiste no seguinte: o capitalismo não é
comparado ao socialismo. Se isso fosse feito, a comparação, por exemplo,
deveria ser entre a Alemanha capitalista e a socialista, ou, ainda, entre a
Coreia capitalista e a socialista. Os termos da comparação teriam parâmetros
que serviriam de critério para qualquer avaliação.
A "comparação" é de outro tipo. Compara-se o
capitalismo real, existente, com a ideia do socialismo, forjada pelos que lhe
atribuem todas as perfeições. Ou seja, atribuem-se ao socialismo todas as
perfeições e se passa, então, a verificar se elas "existem" no
capitalismo. Isso é equivalente a comparar uma sociedade perfeita a uma
imperfeita, ou a comparar o homem a Deus. É claro que o homem, com suas
imperfeições, sairá sempre perdendo quando comparado a Deus. O mesmo destino
teria a comparação entre uma sociedade perfeita (ideal) e uma imperfeita
(real).
Mais curiosa ainda é a afirmação de alguns segundo os
quais haveria plena compatibilidade entre socialismo e democracia, quando isso
não se verificou historicamente em nenhum lugar. O socialismo no poder
caracterizou-se pela tirania totalitária. O "pensamento" esquerdista,
se é que se pode utilizar essa palavra, é totalmente capturado pelo dogma, esse
repouso dos que se recusam a pensar. É o mundo das ideias descontroladas, que
não podem ser verificadas empiricamente. Ora, só onde o capitalismo prosperou é
que a democracia representativa foi consolidada e os cidadãos puderam usufruir
a liberdade.
Há uma mentalidade religiosa, teológico-política, que
guia a esquerda tupiniquim. Vive de "preconceitos" contra a economia
de mercado e o direito de propriedade, postulando, como se fosse uma coisa
teoricamente séria, a "utopia" ou o "socialismo" enquanto
ideias "superiores" ao capitalismo. Na ausência de conceitos,
contenta-se com diatribes contra o "neoliberalismo" e outras
patranhas do mesmo tipo, como se fazer política residisse só em enganar o
próximo, em abusar da inteligência alheia.
DENIS LERRER ROSENFIELD É PROFESSOR DE FILOSOFIA NA
UFRGS. E-MAIL: DENISROSENFIELD@TERRA.COM.BR
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